Em uma semana devorei o livro do inspirado escritor, e amigo, Itamar Cardin: “Utopia em 3 Atos – 35 anos da Escola Livre de Teatro de Jales”. Pude voltar às reminiscências de uma época que marcou muito minha trajetória de 40 anos de teatro e que completo exatamente em 2025. E as coincidências não param por aí, como veremos no decorrer deste texto. A leitura me fez voltar aos tempos que acompanhei as peças da Cia Drumond e as conversas com Ediney de Jales. Um menino com brilho no olhar e com muita vontade de aprender, como eu. Nos encontrávamos em todas as oficinas e fizemos assim, paralelamente, nossa formação por meio de leitura, debates e as mais variadas oficinas de técnicas teatrais, sempre com os melhores mestres. E experimentando tudo isso nos processos de montagem e no palco, é claro. Rio Preto proporcionava isso com seu Festival Nacional de Teatro; estávamos no final da década de 80 e tínhamos muito o que dizer nos palcos com o que passava com o país (qualquer aproximação com os dias de hoje é mera coincidência).
O sabor do livro estava na diversidade que o teatro pode abranger. Pude acompanhar a história da 1ª atriz e dançarina trans, como também a do padre que foi reconhecido como ator e vê o teatro como uma religião. Tudo iniciando no portão lateral e um sonho. Como no teatro, protagonistas se revezaram e pioneiros, com muito trabalho e perseverança, transformaram tudo em realidade. Destaco o Clayton que, com todas as responsabilidades familiares, fez tudo acontecer. Mais atores estão em cena, dezenas, como o pioneiro José Vitorino e a cria da casa Higor Arco. Em cena, do mundo real, fazem o espetáculo da Elite ser disponibilizado para todos. Me fez lembrar uma frase de Oswald de Andrade: “A massa ainda comerá o biscoito fino que eu fabrico”. E fico emocionado com a foto do terreno que será a futura sede da Escola. Assim fechamos a tríade do que é sagrado no teatro: os performes, a plateia (formada de forma cirúrgica pela escola), e o palco – o terreno que nos abriga; onde colocamos nossos pés, mas que permite flutuarmos com nossa imaginação.
ENTRADA – SINCRETISMO DE SABORES
Que prazer poder acompanhar dezenas de atores e atrizes em cena. Isso é um privilégio nos dias de hoje. Outra sensação ímpar foi me reencontrar com uma obra de Wladimir Capella. A nostalgia de grupos de leitura de peças teatrais e onde o autor era sempre incluído por sua importância na dramaturgia nacional. E aqui relato outra coincidência incrível: na semana anterior à estreia do espetáculo eu havia levado um grupo de alunos para um programa de TV onde vimos, ao vivo, a interpretação de Filme Triste e também de Fernanda Abreu, que estava na 1ª projeção da peça. No elenco duas alunas minhas da FEF: Ana Silvia Simione – a traída no filme – e Ana Júlia Vieira, com figurinos impecáveis dos anos 60. E o Jornalismo da FEF sempre cruzando com a história da Escola Livre de Teatro (leiam parte do padre e da Viviane no livro).
No espetáculo Filme Triste, com direção de Valdecir Nery e assistência de Elaine Sgobi, os destaques em cena da “Turma Capella “foi Fernanda Malviegas Leite e Antônio Martinez Veiga, com a presença marcante em suas personagens, mostram que a experiência de vida pode ser bem utilizada no palco. E confesso que uma cena fica na minha mente: é a do aluno de francês, encenada pela atriz Júlia Sampaio Moreira que, só com gestos trouxe o que há de mais belo no teatro que é a vida interna da personagem. Escultores gênios, como Michelângelo, conseguiram essa maestria com mármore. O elenco corajoso também se destacou. Enfrentaram as dificuldades de poucos ensaios gerais com a presença de todos e com cenas fragmentadas do texto, inclusive com saltos temporais. São as características da pós-modernidade de Stuart Hall gritando. Tudo que acontece internamente também se estende para o palco. Mas aí vem a mágica do teatro e, no final, a peça acontece e o público regozija.
Drama é tensão mas essa é a canalizada na dramaturgia e processo de criação. O frescor da peça se estabelece nas relações humanas, nos flertes ingênuos de uma geração sem a mediação tecnológica – nas praças, no pequeno portão de entrada da casa da moça e até no cinema. Foi bonito de ver em cena o elenco, que muitos não viveram essa época, trazer esse respiro – do proscênio aos bastidores. A luz e projeções no ponto certo e uma trilha sonora de arrepiar. Algumas questões técnicas podem melhorar como a fumaça em cena que de ambientação pode ser confundida com início de incêndio. Mas o que pegou fogo foi as relações das cenas e do elenco lutando pelo seu espetáculo. Isso é bonito de se ver, principalmente numa escola cujo objetivo é trazer a importância que a encenação pode reverberar para a vida das pessoas – tanto as que estão em cena como as que assistem. Essa peça abriu o apetite pela cultura.
SOBREMESA – O CLÁSSICO QUEIJO COM GOIABADA
Que prazer poder acompanhar dezenas de atores e atrizes em cena. Isso é um privilégio nos dias de hoje. Como no livro, algumas repetições não são ao acaso. Esse minimalismo visa explorar novos sabores. Como os expressionistas que pintavam a mesma paisagem, só que em horários diferentes para poderes desfrutar das nuances e matizes da luz do dia e da época do ano. Como diz Stanislavski, o verdadeiro sabor do texto não está no texto em si, mas nas possibilidades de interpretação que se escondem nas entrelinhas. Como no banho num rio, cada banhar torna-se único, como no teatro e em cada sessão. E essa foi especial, uma estreia – como foi a primeira peça vista também. Até a ingenuidade da atriz abrir a cortina para ver o público é flagrado como espontâneo. Poderia ser até serem usadas como pseudoprólogo de ambientalização essas espiadas de forma proposital, explorando os vários níveis, como um truque de mágica.
Dentro das coincidências que se apresentam durante o texto, essa sobremesa foi saboreada, de forma real, no dia que assisti o espetáculo. E ela faz justamente que o nosso maior dramaturgo da língua inglesa, Shakespeare, faz com seus personagens: une num sabor único e prazeroso o que parecia impossível. Mas o poder do amor não pode ser menosprezado, nunca! O final trágico faz parte, mas também demonstra que até a finitude, em nome do amor, pode torná-lo eterno. Assim dá uma saída para a maior angústia humana que é a nossa passagem temporária pelas experiências da vida.
Em cena, no espetáculo: “Romeu e Julieta” da Turma Suassuna, vimos uma metalinguagem adaptativa do clássico de Shakespeare. Isso por se tratar de uma remontagem da peça que anos atrás foi encenada dentro de um universo circense. Agora é nos apresentada dentro de um ambiente nordestino de guerra entre famílias, com direito à dança com peixeira e suas fagulhas, e ambiente caramelo para trazer a sensação da presença do sol escaldante que vai minando as energias. Essas apresentadas num minimalismo musical na troca de cenas, incluindo a movimentação de guarda-chuvas, que fez o espetáculo se arrastar um pouco. A manipulação da peixeiras também trazem uma tensão negativa, de possível acidente poder acontecer, do que a tensão da cena entre os personagens. Mas em cena, mesmo personagens masculinos defendidos bravamente por atrizes decididas.
Dirigido por Suéllen Karla – que assina também a adaptação e que tem experiência de mais de 20 anos na Escola – e com assistência de Larissa Sanches, a peça é semioticamente muito rica. Chega um ponto que a quantidade de signos a serem desvendados até congestionam a mente. Por ser um texto conhecido isso dificulta menos essa missão. Por outro lado, drama é ação, e esta é preenchida por tensão dramática; o chamado conflito. E essas tensões estão onipresentes no espetáculo entre as cores azul e vermelha das famílias rivais, entre os itens nordestinos de secura do presente com os guarda-chuvas do vislumbre; o agora e o porvir, a vida e a morte, a raiva e o amor. Até na cena clássica da varanda, muito bem resolvida com uma escada nos deparamos com os níveis médio e alto, protagonizados por homem e mulher. Enfim, uma infinidade de tensões que constroem o universo do clássico shakespeareano.
Mesmo com o quantitativo de símbolos a peça representa muito bem a Turma Suassuna e com irreverência, utiliza o personagem do pretendente, que traz, em sustos, surtos de comicidade de um personagem enrustido. Porém, muitos risos podem ser engatilhados por plateias próximas. Há que fazer mais apresentações, com públicos distantes, para, de forma cirúrgica, identificar os “times” cômicos sem parecer forçado. Aí a espontaneidade humana, como uma risada fora do comum na sessão que presenciei, podem acontecer mais naturalmente. Também destaco todo elenco masculino que vem com força em cena dando destaques tanto para o Frei (personagem) como para o Padre (ator). Lembro de um ator ter confessado, em conversa após a apresentação, que muitos dos momentos vividos foram únicos e que nem nos ensaios ocorriam. Isso é a mágica do teatro, o vírus que pega. Mas com tempo e técnica esses momentos mágicos ficam mais controlados pelo performer. No elenco feminino, muitos com personagens masculinos, destaco as atrizes que interpretaram a Julieta, a mãe e a versátil antagonista. Todas nos seus papeis femininos.
Mas não poderia haver momento melhor do que voltar ao Teatro Municipal de Jales. Muitas lembranças boas e me reencontrar com os espetáculos de final de ano. Me fez voltar ao momento do livro que foram feitas peças nas ruínas. Ideia genial e que estava presente. Voltando ao espetáculo, esse Romeu e Julieta mostra muito bem a que veio: com maquiagem lembrando a Comédia Dell’Art, figurinos e adereços com retoques nordestinos, um cenário semiótico dos extremos, uma luz marcada com cores barrocas e uma encenação com sotaques que iam e vinham, trouxe para o palco a riqueza do teatro e a busca, desde o início com a curiosidade do Ediney, dos resquícios de várias estéticas e de montagens anteriores. Até Molière combina demais com essa turma. Essa é a fome do teatro. E nada melhor do que finalizar com essa sobremesa “amalgamadamente” saborosa.
EPÍLOGO – UM PONTO SEM FIM
Tenho 55 anos e há 5 tive minha primeira filha. Isso mudou minha vida. Tudo ganhou um novo sentido. Agora entendo que todo esforço pela Escola Livre de Teatro é por sua continuidade, além de nós; que seja algo para atingir os corações e almas que estão por vir. Uma cena linda foi ver os surdos e mudos acompanhando os espetáculos por meio da tradução simultânea em Libras. Esse cuidado dos eventos da Escola Livre de Teatro mostra muito que mesmo no silêncio as mensagens são transmitidas, de geração para geração.
Vejo que muitas funções, nesses 35 anos da boa ELITE, sempre são delegadas para continuadores. E que cada ator e integrante dessa história mostra isso por meio do engajamento e como abraçam o projeto. Outros atos irão acontecer e a história continuará a ser contada. Cada um com um sabor e nutrindo almas que estejam com fome de cultura. Que os sabores e “coincidências” continuem dando o sinal indicial de sucesso e continuidade. Com isso, de forma inédita, deixo, como sinal de admiração e confiança, minha única poesia criada em minha vida, num momento de amor fugaz: “A poesia não te descreve, ó bela! Ela, simplesmente, ilumina o véu que encobre os teus segredos”.
E é assim, com amor e felicidade que finalizo este texto. Foram os combustíveis destes 35 anos da Escola Livre de Teatro. E não podemos ignorar a coragem. Mas esses três atos também significam a ação, que é a definição de drama, da busca da felicidade: Poder, Querer e Dever. Juntos são poderosos. Agora esperar os próximos atos dessa linda história. O terreno já está preparado para isso. Viva!
Marcelo Matos (o famigerado Aranha)
Ator e Diretor de Teatro há 40 anos. Ator do Grupo Proteu de Londrina, década de 90, e da Cia Azul Celeste (10 primeiros anos do século XXI) em São José do Rio Preto. Diretor do Grupo de Pesquisa Teatral Sala 50 (últimos 20 anos). Já foi curador do FIT Rio Preto, do Janeiro Brasileiro da Comédia e orientador artístico do projeto Ademar Guerra da Secretaria de Estado da Cultura. Pesquisador, ator e produtor de Cinema. Faz parte do grupo do Instituto Juan Droguett que anualmente publica livros sobre a arte cinematográfica. Coordenador do curso de Jornalismo da FEF e professor de Comunicação da UEMG – Frutal. Avaliador do MEC – INEP/BASis desde 2024.
Foi convidado para assistir e dar um feedback sobre os espetáculos adultos que, no final de 2025, fecharam o ano das turmas de 3ª e sábado da Escola Livre de Teatro. Esse texto resume o que li – em evento de lançamento do livro da Escola – e das peças que assisti. Viva a Escola Livre de Teatro de Jales!
Crédito das fotos: GG Bergamo
Crédito das fotos: GG Bergamo