Um jorro de conceitos para falar de corpos à margem

Teatro militante, teatro político, teatro combativo, teatro de reparação. Seja qual for o nome, seja qual for a gavetinha de rótulo, ele existe como escolha consciente de seus realizadores. Teatro épico como ferramenta de conscientização. Um não à ilusão. Diante desse palco-palanque, querido público, não se emocione, apenas pense.
É uma opção estética e ética: garantir que a mensagem forte chegue, porque ela precisa chegar. Aliás, é urgente que chegue. Quantos espetáculos assim ainda serão necessários até que as tragédias cicatrizem, os erros sejam reparados, a diversidade seja aceita, o mundo se humanize, o preconceito escoe todo pelo ralo? Que se façam tantos quanto preciso for. Porque quando no teatro isso funciona, criam-se peças históricas.
É nesse contexto que se encaixa muito bem na cuidadosa programação do 12.o Festival de Teatro de Jales a peça ‘Asili: O Corpo Que Ainda Guarda’, vinda de Araçatuba, pela eBUN Companhia de Teatro Negro. Um festival que este ano escolheu um eixo curatorial voltado justamente para as “corporalidades” historicamente silenciadas e empurradas para fora da representação. O corpo negro é o arquivo que ainda guarda a semente do desenvolvimento da cultura afro, justamente o significado da palavra asili, a essência de uma cultura, na língua africana suaíli (banto).
Luz baixa, depoimentos densos, texto carregado de cobrança, citações teóricas como forma de embasar o pensamento, acusação de culpa, plateia interpelada ‘na lata’, discurso de dor ancestral, menção rasgada à escravidão e ao racismo estrutural. Quem discorda que sejam temas necessários? Serão sempre. Foram muitas décadas de sufocamento e invisibilidade. “Você consegue me ver?”, pergunta a atriz na boca de cena, rainha de si e da coisa toda.
E como um tema, seja ele qual for, sempre pede uma forma, o palco nesse caso específico do espetáculo da cia. eBUN vira tribuna. Ainda que se simule uma cozinha com cheiro de cebola, um bar com vara de luzes e cerveja no copo, um reparador banho de bacia, a roupa branca do malandro tipificado. O discurso é direto, quase sem ironia, sem virada dramática, sem construção consistente de personagem. Até tentam, mas não é isso que importa mais nesse jorro de espetáculo. Importa que os atores, com pleno e absoluto lugar de fala, sejam ‘porta-vozes de manifesto’ e participem de um ‘panfleto encenado’.
Todo grupo que opta por esse caminho quer garantir que a mensagem não se perca. Mas há na montagem uma dose de ingenuidade que, se por um lado emociona, pelo que contém de entrega honesta de todos os profissionais envolvidos, por outro evidencia um amadorismo que interfere na proposta, fazendo com que todo o discurso perca um pouco a consistência.
Projeções de imagens repetitivas em um telão, de forma quase tosca e pouco criativa, são exemplos dessa vontade de fazer, mas sem apuro estético suficiente. O trabalho de voz do elenco carece de mais cuidado, para que a força das palavras escolhidas não seja desperdiçada pela ansiedade acompanhada de respiração errada.
A dramaturgia verborrágica e coalhada de frases conceituais difíceis de serem proferidas uma após a outra pelo elenco – e de serem assimiladas de pronto pela plateia – também dá mostras de ineficiência, porque quer dar conta de muitos conceitos e embaralha dezenas de citações beirando o aspecto didático de uma palestra.
Despejam na plateia nomes como Bezerra da Silva, Madame Satã, Luiz Carlos da Vila, Conceição Evaristo, Denise Ferreira da Silva, Leda Maria Martins, Jovelina Pérola Negra e até a antropóloga afrocêntrica Marimba Ani. Todos maravilhosos e essenciais para a abordagem do tema, mas falta à dramaturgia um tom mais verdadeiro e menos fruto das compilações de uma inegável pesquisa bem-feita.
É preciso que o grupo confie mais na cena e menos na palavra. A oralidade, sim, como a peça deixa claro, é peça-chave para a reparação, para a valorização do ancestral que ficou tão machucado na história de uma cultura. Mas a força e a potência do jogo cênico teriam de estar mais presentes, em cenas menos pueris. A direção é pueril, no sentido de que reproduz situações pouco surpreendentes, resoluções cênicas de gente iniciante.
A bêbada falastrona irrequieta na cadeira do bar, a feminista exuberante e acintosa, o gay sensível cortando cebola em um crescendo de raiva, a metáfora da água na bacia, a senhora de xale falando um texto imenso de costas para a plateia, a dança final pouco envolvente. Nada disso é brilhante, inusitado, potente.
Em vez de a cena acompanhar com a mesma veemência todo o discurso vociferante de indignação, proposto pelas dramaturgas em colaboração coletiva com o elenco, escolheram todos ‘fingir’ que estão conversando durante os ensaios de um espetáculo no qual nem o próprio grupo ainda acredita. “Já temos?”, se perguntam constantemente. É o amadorismo assumido, admitido em cena, como se fosse recurso de linguagem. Não é. Pelo menos aqui, não funciona assim. A insegurança da encenação acaba prevalecendo, diante dessa escolha de fingir que é ensaio – e mesmo com tanto discurso útil, essencial e valoroso recheando cada escolha. A sensação é a de ter visto um espetáculo com muito conceito bom, mas tateante. Pena.

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