Crítica por Dib Carneiro Neto
Se eu acreditar em uma história em que ninguém ainda acredita, ela já deixa de ser inacreditável?
Como resistir a um espetáculo de censura livre que já começa, logo nos primeiros minutos, com esse tipo de pergunta tão instigante, tão criativa, tão propulsora de jorros fantasiosos? Porque é isso que é À Beira do Sol, da Cia. Os Buriti, que veio de Brasília para a programação do 12.o Festival de Teatro de Jales. É uma peça sobre a fantasia, sobre fé na imaginação. Mais que isso: sobre alimentar dentro de nós a saúde de inventar e acreditar.
Há ainda, no Brasil, muita gente que quer falar sobre isso em peça infantil – um tema tão crucial para a formação psicológica, cognitiva e ética das crianças (haja vista a importância milenar dos contos de fada), mas que acaba optando por despejar frases ditas ‘construtivas’ na plateia, o velho ranço de achar que precisa ser explícito, senão criança não entende. E acaba sendo didático demais, pobre em metáforas, paternalista ao extremo, com o dedo em riste, propondo coisas lindas, mas em tom de lição, não de arte.
Os Buriti, com essa pérola que o público de Jales aplaudiu efusivamente, é um grupo que celebra a força da imaginação sem precisar do invólucro professoral bem-intencionado. Ao contrário, tudo ali é artístico, é sugestão, é poesia, inclusive visual, é provocação saudável, é estética a serviço de um tema sensível. O teatro para crianças não pode mais ficar estacionado na mentalidade de quem ainda não entende que existe uma colossal diferença entre a obra que convida a pensar e outra que organiza sua estrutura para transmitir uma conclusão já pronta.
À Beira do Sol faz pensar, põe minhocas na nossa cabeça, cutuca a lógica de acreditar. Põe vários eus na mesma pessoa e faz um eu conversar com o outro. Quem disse que criança não entende esse jogo que flerta com o filosófico? O que mais criança gosta é de jogo, afinal. Não à toa em determinado momento a personagem aproxima o seu estado imaginativo pulsante de uma condição delirante de loucura. “A minha loucura é minha liberdade”, diz ela. Palavras têm muita força. Chega a ser arriscado interromper o fluxo lúcido e fértil da mente da personagem introduzindo um vocábulo tão determinante quanto loucura. Mas de riscos também se alimenta uma dramaturgia. A loucura é inserida aqui como sinônimo de rédeas soltas da imaginação e, portanto, uma loucura saudável.
E essa doidice brincalhona, acompanhada de insegurança, medo, fragilidade, assombro, ganha potência de empatia, vira espelho e identificação. No fundo, temos em cena uma menina solitária, que se deu uma tarefa hercúlea de vigiar, vigiar e vigiar, sem poder nem sequer dormir. Ao final, ela conclui que a vigilância é sua vocação na vida. A riqueza eficiente de tudo isso para sensibilizar as crianças da plateia é muito louvável. Crianças que sonham demais, mas também se cobram demais, se exigem demais – o espetáculo é sobre elas.
Sozinha em cena, Naira Carneiro nos brinda com momentos delicados de introspecção, misturados com outros de pleno vigor físico e muita eloquência corporal, auxiliada por uma cenografia de claríssima tendência ao etéreo, feita de panos flutuantes simulando nuvens. A sacada de conversar com as nuvens, como se fossem suas amigas, inclusive sendo chamadas por nomes de mulher, como Cibele e Margarete, nos leva a um lugar muito especial de camaradagem, poesia e ludicidade. O espetáculo conta também com canções suaves e harmônicas, de letras que comentam o espírito da personagem – e são defendidas com muita paixão e harmonia pela atriz.
À Beira do Sol acerta muito ao traduzir e corporificar no palco, com extrema plasticidade, inteligência cênica e apuro de texto, uma expressão que muitas crianças ouvem em casa e na escola: você vive nas nuvens. O espetáculo abraça essas crianças ‘voadoras’ e lhes mostra que isso é só mais um jeito de ser, nesse leque numeroso de possibilidades de existir.