As corporalidades eloquentes que dispensam palavras e enredam as crianças

Crítica por Dib Carneiro Neto

No leque variado de espetáculos trazidos para esta 12 ª edição do Festival de Teatro de Jales, todos abarcados no mesmo escopo curatorial que investiga as corporalidades possíveis no estado presente, o infantil Entre Mundos, do grupo paulistano Pulo do Gato, caiu como uma luva, por assim dizer. Trata-se de um espetáculo sem palavras, que depende quase exclusivamente dos corpos de um casal de atores, Gabriel Bodstein e Gabriela Cerqueira.
Digo quase porque sobretudo a trilha sonora e a sonoplastia (Alex, Thomas e Max Huszar) ditam brilhantemente o ritmo da narrativa. É a partir da sonoridade que os corpos se movimentam e que os sentidos de estarem ali se completam. O desenho de luz de Gabriel Greghi também é bastante sofisticado e outro recurso fundamental para que se instaurem os climas pedidos pela trajetória intrigante dos dois personagens.
É incrível como camadas vão se sobrepondo, fazendo a plateia experimentar sentimentos a partir de sugestões, não de conteúdos mastigados. O que se viu na plateia do Teatro Municipal de Jales, lotado de crianças da dita primeira infância, foi emocionante. Elas aderiram completamente à proposta do espetáculo sensorial e físico, repetindo nas poltronas os mesmos movimentos dos atores e, muitas vezes, aplaudindo em cena aberta, como forma de expressar aprovação e encantamento. Revelou-se, assim, na manhã de terça, 20, uma plateia vivaz, de interesse aguçado e disponibilidade para o jogo. Só isso já vale por um festival inteiro.
Entre Mundos é desses espetáculos que se constroem a partir ‘apenas’ de uma convocação à imaginação. A narrativa não vem pronta. Ela se erige no palco a partir da nossa capacidade de abstrair e enxergar o que ali não está. Se a gente não imagina, se a gente não embarca no convite à fantasia, o espetáculo não se completa em nossa fruição. E ninguém melhor do que as crianças para imaginar que está chovendo no palco, nevando na cena, passando um trem, um bando de dinossauros, um trânsito de cidade grande, um carnaval de rua, e para entender que duas criaturas embrionárias estão ali usando meras fitas de pano como portais para viajar entre mundos.
Para que tudo isso se estabeleça, e não é pouco, o que há na dramaturgia é uma fonte de sugestões, de cargas simbólicas, de proposições estimulantes, tudo cadenciado por uma música envolvente, lúdica, manipulada ao vivo por Max Huszar. Vira um mar de significados propostos, evocados, atiçados. Cada novo portal que se descortina no palco é uma viagem sem freios, de mundo em mundo.
Em forma de arte pulsante, propõem-se ideias relativas à descoberta de tato, quente e frio, seco e molhado, dentro e fora, alto e baixo, coragem e medo. Tudo numa profusão de sutilezas engenhosas, complementadas pela magia intrigante do uso de máscaras e a provocação dos sons guturais e até da escatologia pueril. Um acerto e tanto.

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