Crítica por Dib Carneiro Neto
Foi uma explosão de energia a passagem da Cia. Fuá de Terreiro, de João Pessoa (Paraíba), pela 12ª edição do Festival Nacional de Teatro de Jales, na manhã de quarta, 21. Três corpos masculinos negros (Ademilton Barros, Josemberg Pereira e Joziel Santos) adentraram a plateia pelos fundos, produzindo um batuque contagiante e anunciando que os próximos 55 minutos seriam de muita testosterona, vibração e força. O público da cidade pôde vivenciar mais um tipo de linguagem teatral, a da contação (ou narração) de histórias aliada à música, à corporalidade dançante, ao regionalismo e à ancestralidade.
Que, aliás, virou a palavra mais utilizada do momento por quem faz teatro para crianças: ancestralidade. Bem, outro vocábulo, na verdade, continua o imbatível: lúdico. Todos gostam de dizer que sua peça é lúdica. Mas ancestral está chegando perto – e, claro, o risco é de esvaziar seu conceito e banalizar seu sentido. Aqui, neste O Reizinho Negro, o ator, quase ao final, chega a interpelar diretamente algumas crianças das primeiras fileiras: ‘Você sabe o que é ancestralidade?’.
Tão desnecessário, tendo em vista que o espetáculo por si só já mostra que bebe muito bem na fonte de oralidades ancestrais, danças típicas, cantos míticos, reparações antirracistas, valorização das identidades. De que vale acrescentar a palavra gasta, se o que ela significa já desfilou com muito mais eficácia por toda a peça, já encantou toda a plateia? O teatro mostra, sugere, não mastiga, não entrega. Deixem essa função de ensinar a palavra ancestralidade para as escolas. Teatro não é aula, teatro faz o que a peça O Reizinho Negro faz na maior parte do tempo: mostra por ações, por poesia, por humor, e cativa propondo, insinuando, provocando, não ensinando.
Há outra questão dessa mesma natureza prejudicando um pouco este O Reizinho Negro. Não é por ser uma adaptação da obra O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupèry, que é obrigatório despejar na plateia, sem muito contexto nem coerência, as duas frases mais conhecidas do livro, quais sejam: “O essencial é invisível aos olhos” e “Tu te tornas responsável pelo que cativas”. São momentos completamente descartáveis da adaptação, que destoam de todo o resto, porque a peça busca sua força justamente no inusitado de contar a mesma história com brasilidade, falando de racismo estrutural, de orgulho de raça, de valores culturais regionais. As frases ficam vazias e maniqueístas em meio a todo o encanto original e a proposta identitária que o espetáculo traz.
Muito, mas muito mais forte mesmo do que isso é o momento em que os três atores batem no peito e se apresentam dizendo os seus nomes completos e o nome do pai, da mãe, dos avós paternos e maternos. A grandeza dessa cena, no contexto de um espetáculo infantil nos dias de hoje, é descomunal. Sem precisar usar a palavra identidade, nem perguntar para as crianças o que é identidade, a peça marca posição sólida na importância de se ter orgulho de quem a gente é, de quem nos fez, de onde viemos.
Mais adiante na trama, isso volta a acontecer, mas o trio não mais se apresenta dizendo nomes, mas se descrevendo, contando que tem cabelos crespos, pele preta, nariz pequeno achatado e por aí vai. É um salto ainda além. Cultivar a autoestima ligada ao físico e à aparência é uma das lições de que mais as crianças precisam – e quase nunca isso aparece nas peças infantis, que ainda preferem que a princesa seja loira e o príncipe tenha olhos azuis.
A importância de trazer O Reizinho Negro para o festival não está apenas na divulgação do teatro narrativo, na trilha ao vivo brasileiríssima, na fé nos rituais da cultura afro. Tampouco está só na incrível chance de apresentar ao público mirim o jogo cênico em que basta um acessório como o colar mudando de pescoço a pescoço, para marcar que cada hora um ator diferente está fazendo o protagonista. Tudo isso é precioso, mas a importância maior está na escolha de mostrar para as crianças um elenco que pisa firme, ergue a cabeça, faz seu nome e clama pelo respeito milenarmente negado a uma raça de gente gigante. Quem precisa das frases de Saint-Exupèry para isso?