Crítica por Dib Carneiro Neto
E lá fomos nós para mais uma sessão de Expresso Caracol, espetáculo longevo na trajetória da Cia. dos Pés, de São José do Rio Preto. Sem exagero, já vi essa peça perto de meia dúzia de vezes, porque ela sempre é recrutada pelos festivais. Isso já diz muito sobre seus méritos: curadorias diversas se interessam pelo espetáculo. O fato é que já escrevi mais de uma vez sobre ele e lá vou eu de novo. Em Jales, a sessão foi linda, com total adesão da garotada levada pelas escolas da cidade ao Teatro Municipal, na manhã de quinta-feira, 22.
O grande trunfo dessa atração é sua cenografia ambulante. Como diz o título, trata-se de um veículo expresso em formato de caracol. É vistoso, bem realizado, funcional, criativo, atraente – uma ideia original e concebida por Kesler Jamal Contiero, que fica ao vivo escondido dentro do caracol, conduzindo-o pelo palco. Para mim, entra na galeria das melhores propostas cenográficas que já vi nos últimos 30 anos, incluindo tudo o que vi pelo Brasil inteiro. As crianças ficam fascinadas por essa engenhoca que se move, abre e fecha portas e janelas e, mais do que isso, faz brotar de dentro de si inusitados objetos e adereços.
A direção e a dramaturgia são de Angélica Zignani, que participa também como atriz, de uma forma técnica e ao mesmo tempo muito tocante: na pele de uma bailarina clássica, a versátil Dimitréia Petronova. Ela se expressa pelo corpo e por uma língua inventada e isso intriga bastante positivamente o público mirim, que adora esse tipo de jogo desconcertante de linguagem. Destaque para os climas que a luz de Fuad Jammal Neto instaura no palco, sobretudo nesses números da bailarina.
O enredo é próprio para iniciação das crianças ao mundo da dança. Um palhaço, o vaidoso e ególatra Leminski (Daniel Neves), e a bailarina (Angélica) são os dois personagens. A história é um pretexto para essa bailarina mostrar às crianças trechos de vários números clássicos de balé. Um grande mérito. A gente vê os olhinhos das crianças brilhando a cada número, encantadas com a música, os passos, os figurinos da atriz-bailarina. Vocações para a dança podem nascer ali, a partir dessa proposta do Expresso Caracol, e isso é muito bonito de se ver. No contexto desse festival, que propõe o leque temático das corporalidades, não poderia, de fato, faltar o corpo da bailarina.
Não poderia também faltar no festival o jogo de corpo clownesco, a fisicalidade do tombo, as quedas risíveis, o humor físico típico de picadeiro. Daniel Neves tem o domínio de todas as formas, jeitos e trejeitos de encarnar o seu personagem. Um carisma inegável, uma energia retumbante, uma entrega absoluta. Ele carrega a plateia inteira o tempo todo na palma de suas mãos. Seu trabalho vocal, cheio de tons e nuances variados, também chama a atenção. Um ator completo. Ter revisto ‘_Expresso Caracol’ _mais uma vez me confirma sua força atemporal. E que teatro bom nunca cansa.