Peneiras entre o plano político e a sustentação estética

Crítica por Kil Abreu

O Coletivo Peneiras, eles nos informam, nasceu em 2014 entre amigos artistas que queriam formar um grupo independente. O norte é a pesquisa das culturas afro-brasileiras. Em Peneiras Conta Negritude a companhia piracicabana inspira-se no clássico moderno Arena Conta Zumbi, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, com músicas de Edu Lobo. O espetáculo foi uma das respostas do Teatro de Arena ao golpe de 1964. A outra referência anunciada é o conceito de tempo espiralar, desenvolvido pela dramaturga e pesquisadora mineira Leda Maria Martins. São duas fontes importantes, do passado e do presente do teatro brasileiro, agora retomadas como materiais para a criação de um jovem grupo paulista interessado nos tensionamentos que estão no horizonte dos teatros negros. O que quer dizer, dos teatros, enfim.

Estreado em 1965, em São Paulo, Arena Conta Zumbi é sobre a luta do Quilombo dos Palmares, encenada como resistência à dominação escravista. No calor da hora, ainda naquele primeiro momento de arranjos repressivos pós-golpe, o espetáculo oferecia uma chave para interpretar o país: a derrota das expectativas de transformação social, a violência das classes dominantes e a necessidade de reorganizar a resistência política. A forma épico-musical, influenciada por Brecht, rompia com a identificação naturalista entre ator e personagem e recorria ao “sistema coringa”, no qual os intérpretes podiam assumir diferentes papéis, tornando visível o caráter construído da representação. É uma técnica que foi depois amplamente difundida e que está, inclusive, neste trabalho do Peneiras.

Em Zumbi a música, a narração e a alternância de funções cênicas articulavam a experiência histórica à intervenção política. A montagem, entretanto, expunha um impasse que a leitura contemporânea do grupo de Piracicaba contorna: a história da resistência negra era mobilizada por um projeto de oposição à ditadura, mas a representação permanecia mediada por um coletivo predominantemente branco. A força antiautoritária da obra não eliminava, portanto, as contradições de sua perspectiva sobre a experiência negra, nem as limitações de uma representação que convertia Palmares em alegoria de uma conjuntura política posterior. Este não é um dado irrelevante na encenação a que assistimos no Festival de Jales. É uma vitória que está em cena, subliminarmente.

Na apresentação que vimos sobre o palco do Teatro Municipal, a referência a Boal e Guarnieri encontra como justificativa retomar a história de Palmares e a resistência à escravidão para pensar a permanência do racismo e as formas contemporâneas de afirmação da cultura negra. Aqui já podemos encontrar a primeira de uma série de boas questões a que o espetáculo nos leva, algumas delas apontando avanço diante da abordagem antiga, outras revelando certa perplexidade a respeito do que fazer com os impasses, e mesmo sobre o como fazê-lo. De princípio, já é possível ver que a proximidade temática não significa identidade na operação crítica. Nesse aspecto, a montagem do Peneiras está bem antenada aos desdobramentos correntes daqueles assuntos. Por exemplo, enquanto Arena Conta Zumbi lançava mão do passado colonial para intervir numa conjuntura de derrota política, fazendo da resistência quilombola uma alegoria da luta contra a ditadura, a proposta do Peneiras amplia o campo da representação. Trata-se de contar a negritude para além de um episódio histórico ou de uma figura heroica, articulando ancestralidade, memória e experiências negras sob o ponto de vista atual, insuflado por uma movimentação ampla da sociedade brasileira, que passa pelo teatro mas é maior que ele. O espetáculo assimila isso. O salto para o presente, com a incorporação do hip-hop e de referências culturais mais recentes, desloca o centro de gravidade da resistência política figurada por Palmares para as formas negras de existência, criação e luta de hoje. Há, portanto, uma diferença que não é apenas temática, mas de perspectiva. A negritude deixa de ser somente matéria de uma alegoria política e reivindica lugar como sujeito da narrativa e da elaboração cultural.

Dito isso, que parece ser o movimento politicamente mais importante do espetáculo, a questão crítica passa a ser saber se essa ampliação se realiza também na forma teatral, produzindo tensões entre passado e presente, memória e experiência, ou se a referência ao clássico funciona sobretudo como legitimação histórica de um discurso afirmativo já constituído. Parece-nos que há indícios suficientes em cena que nos levam aos dois lugares, simultaneamente.

Tempo espiralar e forma cênica

Quanto ao conceito de tempo espiralar, como o pensou Leda Maria Martins, podemos dizer que ele ofereceria, de fato, uma chave possível para a estrutura cênica que o grupo propõe. Nela podemos ver que o passado não constitui uma etapa encerrada, mas uma temporalidade que retorna e se atualiza nos corpos, nos gestos e nas experiências. Por exemplo, a passagem do tráfico negreiro e de Palmares à abordagem policial contemporânea pode tornar sensível a persistência da violência racial. Por outro lado, há uma distinção entre reconhecer essa recorrência e realizar teatralmente a espiral. Para a pensadora mineira, o retorno não é a repetição especular do mesmo, é também transformação, reinscrição e produção de diferenças. Nesse aspecto, salvo engano, há um déficit no trabalho do Peneiras. O trânsito temporal que a dramaturgia firma, simbolizada nos ótimos, inventivos figurinos, parece indicar, paradoxalmente, mais uma continuidade que um redimensionamento histórico da questão do racismo. Se este argumento estiver correto, talvez possamos dizer que se preferiu abraçar a militância, legítima, à possibilidade de tensioná-la além da tomada de posição. Uma pergunta cabível, aqui, seria não sobre como uma época reflete outra, mas como é que uma época é e não é extensão de outra, ao mesmo tempo.

A divisão entre um primeiro ato, “cultural-histórico”, e um segundo inteiramente contemporâneo, ilustrada nas cenas da abordagem policial, reexibida em looping, parece mostrar a reposição contínua do racismo. É um argumento indiscutível, inquestionável. Mas não oferece objeção de nenhuma ordem. É um registro sobre como as coisas são. É possível que falte aqui o procedimento mais interessante, que foi anunciado: explorar as temporalidades simultâneas e transformadoras implicadas no conceito de “espiralar”. Ou seja, a referência teórica ampara a proposta, mas não garante, por si só, sua realização formal.

Assim, ao sugerir que, sob novos figurinos, tudo permanece como antes, a montagem corre, a nosso ver, o risco de converter a persistência estrutural do racismo em imobilidade. A violência policial continua revelando o desrespeito brutal contra vidas negras, mas sua compreensão histórica exige perceber o que mudou nas formas de produzir e administrar essa subordinação. A dramaturgia do espetáculo, se a compreendemos direito, fica em falta com isso. Marca a posição justa, mas não faz aparecer, junto ao que retorna, as contradições e transformações que esse retorno acumula.

Acabamento estético, questões técnicas e a falta de amadorismo

 

Daqui partimos para observações mais perigosas, sobretudo se o ponto de vista for político. Ao fim e ao cabo, é o olhar de um crítico branco fazendo considerações sobre o trabalho de artistas negros. Mesmo assim, vamos em frente. A boa-fé há de justificar as ideias e a leitura, em dissenso.

Entendemos que o plano de pensamento de Peneiras Conta Negritude é ambicioso.

Que não nos devolva efetivamente em cena um resultado suficientemente complexo, que o trabalho circule por vezes apenas pela superfície dos problemas que se propõe a enfrentar, é fato. Mas está na conta da aventura, do mar de questões intrincadas que o grupo tomou para si e decidiu encarar. O que preocupa, então, não é essa frente. Nela há espaço para estas e outras controvérsias. O que preocupa é o acabamento técnico e poético do espetáculo, sem o qual o plano e suas questões não podem ser lidos. Há um impedimento de base nessa área. O espetáculo precariza-se em muitos aspectos da cena. Parece haver uma disposição para cumprir com rigor a tarefa de fazer uma montagem bem acabada, mas, entre as intenções e a cena efetiva, as coisas desandam.

Senão, vejamos. A luz não chega a constituir uma linguagem, é bastante improvisada. As vozes e os cantos são mal trabalhados; a despeito da ênfase vocal, perde-se muito do que os atores e atrizes falam e, o que é fundamental, apesar da energia sempre à flor da pele, parece faltar ao grupo o ânimo que distingue os coletivos quando a criação se torna uma experiência compartilhada. Esta percepção pode soar como contrassenso, mas não se lembrarmos que o palco tem suas razões próprias ao aderir ou recusar as diversas formas de empenho que os artistas demonstram sobre as tábuas. O que temos neste trabalho é o desenho, a informação física, sobre uma ânima coletiva, ritual, grupal que, no entanto, na real parece não estar lá, parece ser apenas noticiada. A questão não é cobrar de um grupo as condições materiais ou o domínio técnico, mas observar que, neste caso, sem isso, a precariedade não chega a se converter em potência expressiva.

Talvez falte a recuperação de um espírito de amadorismo, no sentido produtivo da palavra. Não a celebração do trabalho insuficiente, mas a disposição de fazer teatro em que a necessidade de dizer alguma coisa e o desejo de encontro com o público podem compensar limitações de recursos e de técnica. De novo, esta é uma proposição perigosa. Sabemos perfeitamente que isso pode funcionar como enquadramento. Não foram, não são raras as tentativas de fazer o artista negro caber no figurino da intuição pura. Não é essa a intenção aqui. É o contrário. Se o espetáculo pretende interrogar a transformação da experiência negra em objeto de representação, não basta enunciar a resistência ou convocar seus símbolos. É preciso encontrar uma forma viva de fazê-los operar no presente. O fogo que poderia acender o interesse da plateia não nasce da precariedade em si, mas da capacidade de transformá-la em linguagem, risco e invenção. Em Peneiras Conta Negritude, essa passagem ainda não se realiza. Há ambição no pensamento, mas falta à cena a força de criação capaz de sustentá-lo. Não invalida o elogiável, necessário projeto político do grupo, apenas o coloca diante de desafios artísticos que estão na pauta, para serem respondidos.

 

Peneiras Conta Negritude, com o Coletivo Peneiras

Espetáculo apresentado no Teatro Municipal de Jales em 23/10/2026

 

Direção: Giovani Bruno Assistência de Direção: Rosângela Pereira Produção: Bruna Ribeiro e Giovani Bruno Elenco: Dafni Fernanda, Bruna Ribeiro, Diego Borges, Fran Viana, Kadu Lima, Magna Eliez, Mayra Kristina, Tiara Silva, Vitória Prado e Ane Caetano; Preparadora corporal e Coreógrafa: Letícia Alves e Marcinha Preparador Vocal: Everton Gennari Trilha sonora: Saulo ligo e Letícia Alves Operadora de Luz: Letícia Alves Operador de Som: Giovani Bruno.

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