Crítica por Dib Carneiro Neto
Você já ouviu falar em reenactment viking (ou recriação histórica viking)? É a prática de recriar de forma autêntica a vida, a cultura, os artesanatos, as vestimentas e os combates da Era Viking (aproximadamente entre os anos 793 e 1066 d.C.). Pois saiba que o Brasil é o país da América Latina que mais tem pessoas ligadas a essa conexão, com inúmeros grupos de estudo de mitologia nórdica, além de bandas de folk metal e até campeonatos de combate com espada. E muita gente alerta para o fato de que a cultura viking está além desse estereótipo do guerreiro com capacete e chifres. Alguns dizem até que esse visual ligado aos vikings nunca existiu e que a imagem do saqueador brutal foi construída e difundida pela Igreja.
O fato é que também se diz muito que os vikings eram exímios contadores de histórias, difusores de uma mitologia rica em deuses e propagadores de sagas orais que valorizavam a coragem e a honra. Foi a partir dessas características que a Cia. Os Palhaços de Rua, de Londrina (PR), construiu seu espetáculo de rua Vikings e o Reino Saqueado, que se apresentou na noite de quinta,22, no Festival Nacional de Teatro de Jales.
Em cena, no alto de pernas de pau, com assumidos chapéus com chifres, Diego Loman, o Palhaço Marimba, colaborador da companhia, e Adriano Gouvella, o Palhaço Batata Doce, um dos fundadores do grupo, nos contam histórias. Mais que tudo eles nos contam histórias, honrando a fama dos vikings. A essência do espetáculo é essa. Eles utilizam ferramentas circenses e promovem interação direta com o público para abordar temas sociais e políticos de forma cômica.
Pelo enredo narrado por eles, são dois guerreiros voltando das navegações para sua terra de origem, onde encontram a rainha destituída e o trono ocupado por duques, representados por melões em forma de pato (ducks). Tudo vai girar em torno de devolver o trono ao povo, combatendo o poder da nobreza usurpadora. Um tema sempre atual e candente, não é mesmo? Nesta semana da eleição presidencial histórica que vem por aí, cada palavra ganha outros e outros significados, outras conotações – e isso é ótimo. O teatro tem essa força de fazer o público refletir sobre o presente a partir de metáforas e outras provocações.
O espetáculo opta por um texto clássico, bem escrito, mas pouco coloquial e bastante palavroso. Em muitos momentos, fica engraçada essa disparidade entre o rigor oral e a descontração física dos palhaços, mas em outros a fluência da narrativa se prejudica, porque é texto demais saindo de uma vez só da boca de um palhaço que acaba de fazer uma estripulia e ainda não deu tempo de a plateia retomar o fôlego das risadas e tiradas anteriores.
De toda forma, o que se observa é que, a despeito das cambalhotas, tombos e saltos, o humor dessa companhia de palhaçaria valoriza bastante as palavras, os trocadilhos, o nonsense verbal, as confusões provocadas por falas mal-compreendidas. Um exemplo: o palhaço acende o fogo quando o outro diz para ele ir se aquecer, deixando a garotada maluca com a ingenuidade do personagem em não entender que aquecer é ir treinar. Graças assim, feitas a partir das palavras, são a ferramenta maior desta atração.
A longa cena de combate com espada se traduz diretamente no brilho dos olhos das crianças, fascinadas pelo vigor, pela vitalidade, pelo jogo de corpo dos dois atores, muito bem treinados. A ressalva da “não violência” é feita, mas ver os vikings em ação, como símbolos de liberdade, heroísmo e aventura, mexe saudavelmente com o imaginário potente das crianças. Os verdadeiros saqueadores são os nobres, dizem os palhaços. Temos de devolver o reinado para o povo sem violência, deixam claro, para em seguida, com um machado, símbolo da violência viking, estraçalharem os melões, uma melancia e um repolho, transformando o espaço de encenação em um “fim de feira” emporcalhado, sujo e desagradável, com respingos de frutas na roupa da plateia das primeiras fileiras. O humor desconfortável também é o forte da companhia. Chocar, desconstruir, causar estranhamento e, sim, desconforto no público. Palhaço também faz isso, incorporando bufões, com licença social para serem nojentos, destrutivos, anárquicos. Ri-se por catarse. E como é bom.
Ao final, os dois artistas portam um espelho, virado para a plateia, como que a dizer: se vejam, se assumam, se enxerguem, se identifiquem, falamos de vocês o tempo todo, não perceberam? Mas a plateia de crianças já está tão pilhada e excitada pela destruição espetaculosa das frutas, que o efeito crítico e provocador do pequeno espelho se perde na dispersão barulhenta. Valeu a tentativa.