Cordel marca presença no festival, com forte foco na crítica social

Crítica por Dib Carneiro Neto

Foi sagaz e coerente com a proposta curatorial dessa 12ª edição do Festival Nacional de Jales incluir na programação de rua um espetáculo totalmente apoiado na adaptação cênica da literatura de cordel, ‘No Reino de Calamaço’, do Grupo de Teatro Às Avessas, de Belo Horizonte (MG). Foi mais uma linguagem diferente apresentada ao público de Jales, mais um jeito de fazer teatro, mais uma forma de usar o corpo em cena.
O espetáculo é baseado na literatura de cordel de Fernando Limoeiro, dramaturgo, ator, educador e professor pernambucano radicado em Minas Gerais, atualmente aposentado do Teatro Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O grupo defende com muita propriedade e extrema energia a linguagem característica desse tipo de espetáculo popular, que transforma versos, métricas e rimas dos folhetos de cordel em encenações dinâmicas. Os diálogos e as falas dos personagens são construídos em forma de poesia, mantendo a métrica, o ritmo e a musicalidade tradicionais desses folhetos.
Na trama envolvente, os personagens também seguem à risca essa matriz da cultura nordestina, com tipos humanos inspirados nas tradições, no folclore e no imaginário popular do Brasil profundo, como a cena das lavadeiras dançando ciranda, por exemplo. Há uma forte ligação com a palavra falada, incentivando a participação e o envolvimento direto do público durante o espetáculo. O grupo aprendeu muito bem as lições que pesquisou, a ponto de dominar o movimento cênico com muito afinco. Os corpos são fundamentais para a criação dramática, expressando neles a energia e a comicidade do texto. A crítica social também está presente do começo ao fim, ponto forte na literatura de cordel.
Limoeiro criou um enredo muito intrigante e pleno de possibilidades cênicas. Em um reino fantasioso, cria-se a lei do ‘engole choro’, em que ninguém mais pode chorar, sob severa ameaça de multa e retaliação violenta. Mas a rainha está grávida – e, então, quando esse bebê real nascer, como fazer para ele não chorar?
Há cenas bem divertidas, com deboche e sarcasmo, mantendo sempre o foco na exploração dos pobres pelos ricos, dos operários pela nobreza. Incluindo corajosas e ousadas paródias ao Hino Nacional Brasileiro e ao Hino da Independência. É o teatro que afronta, que corre riscos, que faz o público refletir sobre símbolos arraigados e anacrônicos. Naquele reino, não há estímulo ao passatempo, só ao investimento e ao rendimento. Qualquer semelhança com a falta de apoio à cultura em um reino chamado Brasil não é mera coincidência.
Ponto alto é o capricho nos figurinos e adereços, produzidos com muita criatividade, com materiais diversos, brilhos, texturas, estampas e cores abrangentes. E fazer os atores se trocarem em cena, à vista do público, é uma medida que também conta muitos pontos no teatro de censura livre, como forma de iniciação das crianças ao ‘modo de fazer’ no teatro. Destaque para um adereço bem simbólico e bem pensado: os óculos que o rei usa ao final, com lentes em forma de coração e lágrimas pendentes da armação, em referência à lei estapafúrdia que ele criou. Um primor de síntese em um mero objeto cênico.

Facebook
Twitter
LinkedIn
Ponto de Cultura

Ponto de Cultura

O Ponto de Cultura Escola Livre de Teatro coloca-se como agente ativo voltado para o desenvolvimento social.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *