Crítica por Dib Carneiro Neto
Com o espaço cênico demarcado por um tapete em forma de colcha de retalhos (patchwork), o Impacto Agazias Grupo de Teatro, de Heliópolis, em São Paulo, chegou com muito saudosismo, afeto e força ancestral à 12ª edição do Festival Nacional de Teatro de Jales. O espetáculo, batizado de ‘Fubá – Uma Receita para o Tempo’, espalhou ternura e aconchego, ao ar livre, em uma das praças centrais da pequena cidade paulista.
A ideia é falar delas, as avós, e de tudo o que isso significa, tudo o que isso tem de memórias boas e de fé na vida. Inclua-se nisso também uma certa dose de feminismo, uma preocupação em não apenas reproduzir a submissão de mulheres dominadas por um mundo machista, mas também em abrir o leque para a cabeça aberta e livre das avós mais contemporâneas, batalhadoras e empoderadas. “Que a cozinha seja compartilhada, não mais só o lugar de uma mulher solitária e sobrecarregada de afazeres domésticos”, diz, mais ou menos assim, o texto final de uma dramaturgia cuidadosa e preocupada em ser abrangente.
O tempo marca presença constante no espetáculo, a começar pela canção inicial, linda de doer. A trilha toda, aliás, é muito tocante, com canções originais feitas com muito talento e coerência temática. O enredo gira em torno de assar um bolo de fubá, à moda das avós de antigamente. Curioso é constatar, passo a passo, que a dramaturgia é feita de fatias, assim como o bolo. As fatias da dramaturgia vão surgindo uma a uma e só não percebe quem não quer.
Existe, por exemplo, uma fatia muito grande de ansiedade, moldada por uma pergunta insistente: Cadê a vó? O elenco repete tanto essa pergunta que chega a alimentar um certo aperto no peito da plateia. A avó demora para surgir. Ela só vai aparecer em cena a partir de quase a metade do espetáculo. É uma escolha que faz parte dessa decisão de fazer o tempo pairar o tempo todo sobre nós.
E a peça vai soltando suas fatias de bolo: o momento de dar os ingredientes do bolo, o momento de contar quais eram os nomes das avós de cada integrante, o momento de perguntar coisas sobre a aparência das avós: como eram seus pés, e as mãos, e os olhos? Depois, a fatia dos depoimentos sobre como eram as casas das avós. E vem a seguir o pedaço do bolo que recorda quais eram as músicas do tempo das avós e, logo depois, a brincadeira de telefone sem fio. Uma fatia bem linda e sentimental é a conversa de telefone entre um neto e sua avó distante. Texto muito bem construído, que nos causa identificação.
Outro momento fatiado bem interessante é quando eles listam os tipos de medo que surgem nas crianças, enquanto surge um bicho papão feito de pano e de máscara. Nessa hora, existe um diálogo que talvez seja o mais emocionante, o mais terno. E agora o spoiler: é quando a neta conta, toda feliz, para a avó que já não tem medo do escuro. “Eu queria tanto te contar isso, vó.” Difícil não chorar na plateia nessa hora, porque a gente cresce e também quer contar um monte de conquistas para a avó que já morreu.
Não falta também a fatia da sugestão de envelhecimento com Alzheimer, o tão fatídico esquecimento que acomete muitas avós no fim da vida delas. E, ainda, a tão comum disputa entre os netos para saber quem é o favorito da avó – sempre tem um que acha que é ele.
‘Fubá’, ao final, serve – de verdade – fatias de bolo para a plateia. É um espetáculo muito bem construído, com cheiro, tato, ritmo, delicadeza, afeto, interpretações carismáticas, direção precisa, figurinos que fogem de estereótipos, canções muito bem defendidas pelo elenco. Enfim, um espetáculo que nos abraça do começo ao fim, adultos e crianças.