A próxima estação e notas sobre o Festival de Jales – uma crônica

Crítica por Kil Abreu

Este texto não é uma crítica ao espetáculo de Cacá Carvalho, são algumas observações que imaginam a apresentação de seu espetáculo, A próxima estação – um espetáculo para ler, no Festival nacional do teatro de Jales. Também há o registro, em algumas notas, sobre o evento. Tudo em circunstância.

                Foi impossível estar lá.

Foi dolorido não estar lá.

Era preciso estar na capital, por motivos que são justos e maiores que nós.

A vida anda cheia de muitos “nós”. É preciso tomar decisões em meio à enorme confusão do mundo e dos caminhos pessoais também.

Passamos, passei a tarde inteira do Sábado na torturante audição da juventude conservadora da cidade, que fazia campanha dando voltas repetidas nos quarteirões do hotel. Corrijo: não era “a juventude”, era a fração de classe, pelo visto a fração endinheirada, da juventude local, em suas motos, hilux barulhentas e jingles cafonas, num decalque do padrão Barretos de viver a vida e fazer política. Era como se estivessem no quarto, na cama comigo. Estupro dos sentidos. E eu só pensava, depois de dias aprazíveis e gentis vividos com toda a gente do festival: Deus, tirai-me o quanto antes desse lugar. E lembrava da letra de Caetano Veloso, escrita quando ele estava em viagem pelo interior de São Paulo: “Penso em ficar quieto um pouquinho lá no meio do som. Peço salamaleikum, carinho, benção, axé, shalom”.

Distopia e coragem.

A próxima estação, pelo que relata o Cacá, é uma narrativa sobre vidas num futuro distópico. Violeta e Massimo vivem um futuro em que a lírica da história contada não evita o travo da derrota. O tempo da ação é o futuro do presente, portanto.  Já de saída é preciso dar razão ao argumento de Michele Santeramo, que escreveu e dirigiu a montagem. Na Itália, como no Brasil, trata-se de um presente em que somos levados a comemorar a vitória da democracia como se não houvesse amanhã. E talvez não haja mesmo, é o que parece dizer a dramaturgia. Dá o que sentir, dá o que pensar.

Cacá Carvalho é um ator superlativo, de história superlativa. Por isso tem direito adquirido a chegar aqui usando “um banquinho e um violão” cênico, como disse Fernanda Montenegro. De fato, anuncia-se que é “um espetáculo para ler”. Subversão audaciosa em uma época quando tudo existe para ser visto e nossa visão está inflacionada por muitos apelos. A menor grandeza, nesses termos, é a maior grandeza, e deve fazer diferença. A palavra resistência, hoje tão esgarçada, ganha aqui um sentido fresco e tensiona a esperança metafísica, que não movimenta nada. Esperar não pode ser apenas um ato moral. Por isso é preciso projetar o futuro na negativa, acre-docemente que seja. Para que a espera assuma que deu, está dando merda, e seja chamada quem sabe a levantar a bunda da cadeira.

Notas sobre o festival

Não se pode delegar a um festival de teatro todas as tarefas que não deveriam ser colocadas na conta de um único evento, por melhor que seja. Um festival não é a politica pública, deveria ser uma de suas ações. Mas, sim, é preciso comemorar que o Festival exista e esteja cumprido tantas tarefas importantes, da diversão à formação, em Jales, esse lugar de fronteira. É muito importante que um enclave como este, feito para a promoção dos encontros, exista ali. Muito importante e sofisticado que o Festival agregue cada vez mais as gentes de todos os credos e valores – morais, religiosos, políticos – como parece ter acontecido.

Essa agregação tem muito a ver com acontecimentos, pensamento, ações que parecem ter pedido empenho além do protocolo, de quem esteve em alguma das funções que um evento desse tipo comporta. A coringagem dos fazeres revelou atitudes colaborativas. Dificilmente se via alguém cumprindo uma única função. Bilheteiros, fotógrafos, moços e moças da comunicação, da logística, da recepção, da técnica, todo mundo assoviando e chupando cana ao mesmo tempo.

Isso pôde ser lido desde o primeiro dia, na abertura, com o espetáculo de Clayton Nascimento, Macacos. O espetáculo atrasou em uma hora e meia. A chuva quase inundou o vão entre o palco e a plateia. A água empoçada naquele lugar poderia ser mau presságio. Mas mobilizou uma força-tarefa de camisas azuis e de voluntários. Enquanto os técnicos trabalhavam para viabilizar a apresentação, um pequeno batalhão passava o rodo e secava tudo. O público foi paciente e ali, nessa performance de coro feita antes da primeira apresentação, já ficaria claro que o teatro chegara inteiro. O centro do teatro é a cena, uma ilha. Mas a sua sociologia é mar aberto. O mar abraçou.  A solidariedade coletiva é uma pedagogia e ali seguimos aprendendo um bocado.

Na sequência foi possível notar que essa afirmação de princípios surgida, por necessidade, no início, encontraria resposta no bonito trabalho curatorial. Diferente do que muito se diz, sobretudo usando a parte ruim da herança que vem das artes visuais, curador não é autor. No máximo, é um autor de segunda ordem, que se apropria do trabalho dos verdadeiros criadores e criadoras e os organiza, “para que a roda seja formosa”, como disse o antropólogo Luiz Antônio Simas. E assim foi. A curadoria trabalhou equilibrando a escuta do lugar, a escuta honesta do panorama estético atual e projetando uma conquista, a da plateia. Nos espetáculos a que assistimos, essa difícil articulação foi feita em geral através de escolhas de alto nível artístico e de pensamento inquieto. Contundência estética e vivacidade política sem perder a ternura jamais foi o que vimos. O reconhecimento do público não precisa ser advogado, estava lá ao final de cada sessão.

A próxima estação

Em junho de 2024, em entrevista ao ator Alberto Silva Neto publicada no jornal Diário do Pará e no site Cena Aberta, Cacá Carvalho falou de A proxima estação nos termos daquele futuro distópico apontado: “Ao invés de água com açúcar, optamos por um sabor difícil de engolir. Por isso a narrativa vai a lugares que a gente não sabe, porque lá pode ser que tudo seja verdade. Espero que não. Mas, talvez já esteja acontecendo hoje.” O artista desfaz, portanto, a aparência de ficção científica que a peça tem. Por dolorido que seja, o que se projeta para 2065 é o presente com a data adiada. Ele segue:“Eu te levo pra lá, pra você não esquecer disso aqui”. A peça, diz o ator, é “um lamento de que não se fez nada pra salvar o mundo, como a minha geração não fez e a sua também não faz”.

 Para um país que festeja a sobrevivência das suas instituições e da sua frágil democracia, esse lamento talvez possa soar como cobrança fora de hora, e nos serve precisamente por isso. A normalidade reconquistada convive com tudo que ela nunca tocou, e o espetáculo volta ao assunto que a festa, por enquanto com razão, dispensa.

Apesar disso, um espetáculo para ler, em roupa de rua, sem personagem, é a escolha contrária a esse regime, e por isso ganha urgência. Lê-se devagar o que o ruído não deixa entrar, e quem ouve é convocado a completar o que a voz deixa em aberto. Nenhuma saída é oferecida. “Isso não está na mão dos cientistas, está na mão de cada um”, diz o ator. Em certa medida, imaginamos que o espetáculo, assim como o festival, convocam as mãos da plateia sem dizer o que ela deve fazer. Mas nem por isso deixam de ter lado, de firmar o olhar na direção do horizonte que interessa. Nas circunstâncias, não é pouco. Respiremos, festejemos e decidamos que gesto será o próximo.

A próxima estação – um espetáculo para ler

Apresentado no Teatro municipal, no Festival nacional de teatro de Jales, em 24/10/2026

Atuação: Cacá Carvalho

Texto e Direção: Michele Santeramo

Tradução: Cacá Carvalho

Ilustrações: Cristina Gardumi

Coordenação Artística: Márcio Medina

Assistente de Direção na Itália: Erica Artei

Colaboração Artística: Roberto Bacci

Músicas Originais: Sergio Altamura, Giorgio Vendola e Marcello Zinn

Sonorização e Projeção: Kako Guirado e Tiago Mello

Operação de vídeo, som e luz: Kenny Roger

Fotografia: Lenise Pinheiro

Produção: Corpo Rastreado | Nathália Christine

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