Identidade e pertencimento viram poesia no teatro para crianças

Crítica por Dib Carneiro Neto

Sabe quando o nosso querer é maior do que a gente? Isso se chama querência. O espetáculo que engrandeceu a manhã de segunda-feira, na programação do 12.o Festival de Teatro de Jales, usou essas frases para falar exatamente sobre esse querer muito, desejar dignidade, sonhar com um Brasil melhor, cheio de poesia, de afeto, de histórias ancestrais, de apego a manifestações populares tão ricas e criativas.
Querência Quer Ver o Mar, do Coletivo DuVelhoMoço Criações, do Rio de Janeiro, como eu já disse da primeira vez em que vi, em outro festival paulista, é uma pérola encantatória que arrebata a plateia do começo ao fim. Ver pela segunda vez é ter o prazer de constatar que o grupo adquiriu mais potência ainda. Mais querência ainda.
A peça descortina temas como saudade, amor, infâncias perdidas, valorização das brincadeiras populares, retratando um Brasil profundo e outro feito de contrastes entre sertão e metrópole. Aliás, a peça fala de sertão e de ser tão. Fala de preconceitos de raça. Tudo isso sem optar por bradar palavras de ordem ou liçõezinhas professorais. Isso eles deixam para as escolas. No teatro, a arte é que dá seu recado – de um jeito… artístico. Simples assim.
O grupo, dirigido por Berg Farias, também responsável pela dramaturgia, dá um show de brasilidade, o que significa dizer um show de identidade, de orgulho manifesto na música, na dança, no cordel, na festa junina, na oralidade. O que significa dizer: expressar sentimentos de pertencimento. Cenografia, figurinos, adereços, luz e preparação corporal formam um todo que dá volume ao conteúdo da peça, dá sustância, por assim dizer.
Tudo isso junto rende cenas de uma plasticidade luminosa, acachapante. O diretor criou vários quadros vivos. Desde que pisam no palco pela primeira vez, os atores estão participando de um baile estético muito bem coreografado. Parece tudo muito espontâneo, o que é ótimo, mas há muita construção por trás de cada passo. Sabe quando dá vontade de parar as cenas e ficar contemplando tanta beleza, tanta harmonia? Isso acontece o tempo todo nesse espetáculo. Eu também já havia apontado isso da primeira vez e agora não tenho como não reiterar. É o melhor do espetáculo. As marcações de cena são absolutamente mágicas, impactantes – um prazer para os nossos sentidos.
Berg Farias tem mãos firmes para não aceitar menos do que a perfeição. Claro, não bastam mãos firmes. Sensibilidade estética é fundamental para que o resultado apresentado tenha esse nível. E como é bom ver isso acontecer em peça de censura livre, em que uma direção cuidadosa nos detalhes, preocupada com o bom acabamento, está a serviço das crianças e da formação de público. Porque ainda muita gente faz o tal do teatro infantil da forma mais negligente possível, alegando que criança não repara no rigor estético. Que equívoco.
Bordados, apliques, fitas. Um quintal de cores e encantamentos. Um varal com lençóis estendidos para secar ao sol. Uma bacia de alumínio com água de navegar barquinhos. Bancos de madeira no formato de bandeirolas juninas. Um animal aquático feito de bucha de lavadeira. Um gigante feito com a cúpula preta de um guarda-chuva. O infalível plástico azul que vira mar e adentra a plateia.
Esses pormenores bem pensados incluem também trabalhar o ritmo da montagem. Não há pressa de nada. A dramaturgia se estrutura com calma, com prólogo, com apresentação de personagens, com pausa para vestirem ritualisticamente as meias máscaras, com o milagre do nascimento, com a fuga da protagonista, com a jornada pela cidade, tantos momentos encadeados de forma harmoniosa, ao som manso e bem marcado de tambor, pandeiro, flauta, violão, chocalho, violino e triângulo.
No elenco, tão homogêneo e entregue, Aruam Galileu brilha como o cãozinho Ximbica. Há que se destacar também uma atriz deficiente visual, que, juntamente com o diretor, pensou e idealizou o espetáculo, Analú Faria. A história que eles querem nos contar com tanta querência, com todo esse equilíbrio e boa fluência, é justamente a de uma “menina pequena negra cega nordestina”. Seu nome é Querência e o que ela mais quer é matar sua vontade de mar. “Amar?”, pergunta a avó. “Ah, mar.” É assim um texto que baila diante de nós sua impressionante prosa poética.

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