Crítica por Kil Abreu
Jararaca[s], do Pavilhão da Magnólia, é um espetáculo de muita atitude e pouca verticalidade. Isto é algo tão explícito e tão deliberado que essa leitura não nos parece soar como acusação e sim como uma nota sobre a característica que desenha todo o contorno provocativo da cena. Não é uma peça de teses e sim de perguntas e de tomada de posições.
O premiado grupo cearense toma como tarefa fazer uma breve biografia cênica de José Leite de Santana, o Jararaca, cangaceiro do bando de Lampião assassinado em condições bárbaras durante uma tentativa de invasão da cidade de Mossoró (RN), em 1927. Segundo relatos, depois de torturado ele fora enterrado vivo. Daí à transformação em mito o caminho foi curto. Jararaca é tornado santo popular.
Com dramaturgia de Giordano Castro e encenação de Murillo Ramos, o Pavilhão da Magnólia levantou um espetáculo meio rock’n’roll, meio xaxado, procurando relacionar o personagem às distinções de classe e raça que seguem sendo usadas como critério para a vigilância e punição comandada pela polícia e demais instituições coercitivas. O recado, feito protesto, do “hoje continua sendo como antes” é, talvez, a recorrência mais evidente da montagem. É uma constatação simultaneamente impactante e ingênua. Vista pela superfície, a questão da repressão permanente dos aparelhos de Estado contra as classes populares é incontestável. Já na sintonia fina, parecem faltar sempre ao trabalho, como nesse exemplo, os desdobramentos que historicizam circunstâncias. A necessidade do olhar historicizante é, aliás, anunciada literalmente em cena. Mas, além do aspecto factual, o que torna útil o olhar histórico não é apenas o registro, é a dialética. E nesse terreno os amigos do Ceará não arriscam muito.
A estratégia que o grupo lança, de fazer perguntas à plateia enquanto os próprios artistas se interrogam sobre os acontecimentos, é estimulante. Está no campo de uma dialógica, sempre bem-vinda. Mas não de uma dialética, que é coisa mais divertida. De todo modo, é um procedimento que tem teatralidade e nos abre a porta para entrar no jogo: como poderíamos ver algo – um personagem, um acontecimento histórico, uma relação entre tempos – que é e não é ao mesmo tempo? Trocando em miúdos: o que seria, por exemplo, defender o banditismo (o bando) como ação rebelde, inclusive em cena, no tempo em que o crime organizado (o cangaço da época?) é formado, ele mesmo, por forças policiais; no tempo em que as favelas, as quebradas, estão tomadas por bandos de traficantes em Cristo, ligados a igrejas neopentecostais? Em outras palavras, se a proposta é fazer cotejamentos históricos, como ignorar a existência do PCC e dos arregimentadores de pessoas empobrecidas para a sua trupe que é, como a companhia parece querer, desafiadora da ordem? Qual é o papel do capital na formatação da miséria, da violência do tráfico, ou na criação artística, nas condições subjetivas que levam um grupo de teatro a vestir-se com o figurino da rebeldia?
Como se diz no palco: no final dos anos 20, assim como hoje, é complexo. Sim, é complexo. De fato, o teatro não é a tribuna do mundo, nem sempre serve para apontar soluções. Mas quando a inquietação artística se lança na boa aventura de fazer relações, ficamos ouriçados, queremos saber aonde aquilo vai dar. No caso de Jararaca[s], salvo engano, vai dar, entre outras coisas, em um riscar o chão, o que interessa muito. Notamos, uma cena após a outra, que podemos estar alinhados, que provavelmente somos do mesmo time. Desde a sugestão da violência irracional na projeção da rinha de galos, passando pela expressão da culpa por ter retratado um personagem e não outro, pela retórica inflamada ao microfone em um momento do país que pede nosso posicionamento; sabemos, enfim, pela ênfase das atuações, que tudo ali é urgente e nos convida a tomar partido. Em termos gerais, a menos que você seja um fascista, é difícil não aceitar, não seguir junto às atitudes do Pavilhão. Estamos juntos e juntas. But, so what? E daí? O que é, afinal, que estamos compondo, além da adesão genérica a um campo intuído? São perguntas novas, devolvidas às que o grupo faz em cena.
Essa não é só mais uma história nordestina
Em outra frente, a da fatura formal, o espetáculo articula soluções muito interessantes. A faixa em que se lê “Essa não é só mais uma história nordestina” oferece um eixo produtivo que abre outra entrada. A recusa à expectativa de representação nas bases de um regionalismo stricto sensu tem sido marca da cena feita por artistas do Nordeste. Várias companhias vêm distinguindo, nas últimas décadas, a regionalidade como experiência histórica e matéria estética, da regionalidade como exigência de reconhecimento. O problema não está em representar o Nordeste, mobilizar seus repertórios culturais ou reivindicar pertencimentos. Está na expectativa, frequentemente gerada pelo olhar de fora, de que artistas nordestinos devam oferecer uma imagem identificável e supostamente autêntica de sua região.
A dramaturgia de Giordano Castro e a encenação conduzida por Murillo Ramos reafirmam o gosto por uma cena fresca, não só livre de estereótipos como também questionadora deles. Por outro lado, não jogam a criança fora junto com a água da bacia. Em Jararaca[s] essa disposição aparece articulada subliminarmente. As cenas, daquela forma faladas e compostas, abraçam as gentes e a sociabilidade da região, que são concretas, mas perguntam reiteradamente sobre quem detém o poder de produzir as imagens de uma experiência histórica e determinar quais delas serão aceitas como verdadeiras. É antídoto. Com isso contestam, sem precisar fazer do assunto o centro do debate, a exigência do enquadramento colonial que ainda hoje transforma uma região heterogênea em identidade estável, em uma gramática com sinais prontamente reconhecíveis e, no limite, em mercadoria cultural.
Não estão sozinhos. No teatro há muitos casos dessa discussão. A invenção do Nordeste, do potiguar grupo Carmin, por exemplo, explicita esse mecanismo ao encenar a preparação de atores nordestinos para interpretar personagens nordestinos. A identidade aparece como um objeto de crítica às expectativas externas. O grupo nos diz simbolicamente que não aceita um figurino que antecede à representação. O Coletivo de Teatro Alfenim é exemplo por outra via: sua elaboração formal da história e dos conflitos sociais recusa a redução da região a uma paisagem pitoresca, prefere investigar, nela, as contradições do processo social. Já o Grupo Magiluth desenvolve uma pesquisa cênica de inspiração experimental e em diálogo com seu território, mas não se deixa resumir à obrigação de representar uma identidade regional.
O Pavilhão da Magnólia, nesta linhagem e como em outros dos seus espetáculos, também vem discutindo criticamente a associação automática entre origem geográfica e linguagem artística. O ponto não é abolir a identidade, mas reconhecer que ela pode ser mobilizada, negociada ou recusada, sem funcionar como destino estético. Aqui, o cangaceiro é buscado no imaginário popular e tem sua imagem reperformada em uma operação que o lança além de si (“esa não é só mais uma história nordestina”). É tomado como matéria de elaboração artística sem precisar funcionar como documento de uma suposta essência. Os cearenses trabalham sob a inquietação política ambiciosa de verificar como uma obra pode deslocar ou mesmo contradizer as imagens historicamente construídas sobre o território de onde emerge. Na urgência de enunciados e na horizontal que seja, a obra permite preservar a ambivalência que está no fundo do espetáculo, qual seja, a de olhar a história fazendo-a produzir sentidos imprevistos no presente. É uma luta, como se diz, complexa, mas é bonita.
Jararaca[s] – Grupo Pavilhão da Magnólia
Apresentado no Festival Nacional de Teatro de Jales em 20/10/2026
Concepção e Criação: Grupo Pavilhão da Magnólia Dramaturgia: Giordano Castro Direção: Murillo Ramos Elenco: Silvianne Lima • Jota Junior Santos • Nelson Albuquerque • rudriquix Trilha Sonora e Performance: rudriquix Música Sete: Murillo Ramos Música Imã: Ednardo Música Quem é ele – Eliane: Betto Douglas/ Fernando Santos Gravação Música Sete: Murillo Ramos, Venícius Gomes e Jocasta Voz texto: Marta Aurélia Preparação Vocal: Thiago Nunes Iluminação: Wallace Rios Direção de Movimento: Clarissa Costa e Eder Soares Cenografia: Rodrigo Frota Direção de Arte, Objetos Cênicos e Vídeo: Daniel Torres Galos: Lavínia Negreiros Figurinos: Themis Memória Adereços Galo: Arara Hari Fotos de Divulgação e Vídeos: Allan Diniz Identidade visual: Renan Costa Lima Registro vídeos e redes sociais: Tim Oliveira Colaboração na Pesquisa: A Máscara de Teatro – Mossoró/RN Coordenação de Produção: Som e Fúria Produção Executiva: Silvianne Lima e Jota Junior Santos Produção SP: Corpo Rastreado Comunicação: Canal Aberto Comunicação Apoio: Casa Absurda, Itaú Cultural Coprodução: HUB Cultural Porto Dragão