Crítica por Kil Abreu
Antônio Chapéu é um senhor ator e conduz um espetáculo de febril inspiração popular. Um trabalho virtuoso que, no entanto, não faz pacto com o virtuosismo.
Massapê dá sequência à trajetória de um dos grupos mais prolíficos do interior de São Paulo, a Cia. Andaime de teatro. Ao longo desses 40 anos, saíram obras importantes como Lugar Onde o Peixe Pára, com dramaturgia e direção de Carlos ABC, e Nonoberto Nonemorto, de Luis Alberto de Abreu, com direção do saudoso Francisco (Chiquinho) Medeiros. Um aspecto comum a estes é a pesquisa de uma poética voltada ao retrato do popular, em enredos sobre as vivências, as memórias cotidianas, os choques culturais e as dificuldades de adaptação dos imigrantes, dos migrantes e de seus descendentes, ao se estabelecerem nas lavouras, colônias e pequenos centros urbanos da região.
A companhia segue na estratégia das parcerias artísticas. A dramaturgia é de Solange Dias e a direção, de Rogério Tarifa. Junto à seleção criteriosa dos colaboradores, a cena atesta que o grupo continua fazendo do interesse pela paisagem humana brasileira o fundamento da suas criações. Aqui, trata-se de um inventário de recordações, tratado em chave íntima, que descobre as andanças “família Silva”, certamente inspiradas e provavelmente mimetizadas a partir da história familiar do próprio Chapéu, fundador do Andaime.
Podemos imaginar que é, na vertente das autoescrituras cênicas contemporâneas, uma montagem que mistura documento e ficção. No palco, entretanto, não é possível divisar os materiais, senão acidentalmente. A não diferenciação resulta como qualidade. O amálgama feito pela dramaturgia e arrematado na encenação foi capaz de apresentar a pesquisa efetivamente como obra, e em alta voltagem poética.
O enredo narra o deslocamento épico de famílias de pessoas negras que deixaram o interior de Minas Gerais em diáspora, rumo ao interior de São Paulo, para a lida pesada nos canaviais na zona rural de Piracicaba. Em uma mistura de depoimento íntimo e processo social, a história dessa família específica ecoa tanto a dura realidade material quanto a experiência afetiva, ambas marcadas pela preocupação com o resguardo dos costumes e das formas cotidianas de associação solidária. Entre rezas, cerimônias de reisado, enterros de filhos e festejos do dia de São João, trata-se, como sempre, da resistência à subjugação, da resistência a entregar aquilo em que o povo trabalhador se apega até quando pode: as formas de afirmação e manifestação das identidades.
O espetáculo organiza com rara sinergia estética os campos da atuação, da dramaturgia, da direção, da música. Unidade espetacular não é, naturalmente, uma regra, uma chave que serve para abrir qualquer porta do teatro. Mas neste trabalho a fluência colaborativa entre palavras, gestualidade, música, luz, indumentárias e tecnologia videográfica articula uma resposta criativa coral. Essa resposta é não só adequada como também honesta, justa, em relação à invocação socializante, comunitária, que a peça anuncia. Não aparece como valor artístico em abstrato e sim como alicerce político da montagem.
Um exemplo do gosto por unificar os elementos de composição da cena está na música. Que bela é a música. As canções criadas e regidas por Juh Vieira traduzem bem, no plano sonoro, o sincretismo estético que mantém acesa a alma da peça. De onde vêm?, somos levados a perguntar. Não é preciso saber para intuir que vêm de algum lugar nobre na memória coletiva, quando pretos e pobres entoaram sons, inventaram ritmos e cadências nas fronteiras entre a religião e os modos de ser da alegria profana. Nesse contexto, a notável presença dos músicos, ao vivo, ampara e sustenta o sentimento lírico que atravessa a contação.
O texto de Solange Dias e o círculo de terra e água, formalizado por Rogério Tarifa e Diego Dac, oferecem a Antônio Chapéu aquilo com que todo ator com a musculatura que ele tem deve sonhar. Parecem ativar no corpo um renovado convite à invenção psicofísica. Insuflam a ânima do cavaleiro que vemos em performance, capaz de conduzir-se com a energia firme de quem cavalga lembrando lutas, ao tempo em que também age com a delicadeza de um fiel guardião de histórias. A parte final da narrativa, quando o ator alcança o ponto em que dá o salto pessoal em direção à vida no teatro, é tão comovente quanto os relatos sobre as origens familiares.
Nessa linha, Massapê faz coro com uma das vocações dos teatros negros atuais: a recuperação, em atos estéticos, das subjetividades que o processo histórico tentou apagar. O ator, arranjado em vestes sagradas ou na dança de torso nu; seu irmão e sua irmã em cena, não dizem respeito apenas às questões de uma representação simbólica particular; dizem respeito também a uma estrutura coral – cultural, de classe – maior que o próprio espetáculo. É algo que dimensiona lindamente o ato cênico oferecido ao público, como quem oferece o filme de uma vida a uma plateia que a certa altura se reconhece, mais do que espectadores, também como um grupo de testemunhas.
Massapê
Apresentado no Festival Nacional de Teatro de Jales. Casa do Poeta, às 20h
Concepção e atuação: Antônio Chapéu. Dramaturgia: Solange Dias. Direção Geral: Rogério Tarifa. Direção Musical e composições: Juh Vieira. Músicos: Juh Vieira, Marcos Coin e Dicinho Areias. Músicos Substitutos: Daniel Warschauer e Yuri Coin de Carvalho. Iluminação: Marisa Bentivegna. Direção de movimento: Marilda Alface. Figurino: Juliana Bertolini. Direção de palco: Diego Dac. Videografia e Fotografia: Thiago Altafini. Desenho de som: Thiago Moraes. Cenografia: Rogério Tarifa e Diego Dac. Adereços: Luana Miyamoto. Cenotecnia: Roberto Tomasim e Valdemir Mineiro. Consultoria Teórica: Sol Barreto. Mapa Afetivo: Sol Barreto. Corte e Costura: Celeni Viana e Francisca Lima. Operação de Luz: Rodrigo Damas. Direção de palco: Diego Dac. Operação de vídeo: Carol Alleoni e Raissa Buschini. Operação de som: Thiago Moraes. Programação Visual: Fábio Viana. Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli. Participações especiais: Família Silva (Joaquim Juarez da Silva, Vera Lúcia Silva Carvalho, José Carlos de Carvalho, Maria Cecília Moreno, Pedro Moreno, Maria do Carmo Araujo, Ana Inácio Silva, João Domingos, Elsabete Moreno, Sonia Regina Moreno de Lima, Ana Hermínia, Maria Paula Ferreira Silva) e Grupo Andaime (Jorge Lode, Carlos Jeronimo, Ariane Martins, Jennifer Garcia, Tiago de Luca e Joseane Bigaran). Produção: Rodri Produções. Direção de Produção: Carolina Henriques. Coordenação de Produção: Jessica Rodrigues. Assistência de Produção: Diego Leo e Julia Terron.