Olhar crítico por Jorge Vermelho
A palavra teatro deriva do grego antigo théatron (θέατρον), que significa “lugar para olhar” ou “lugar de onde se vê”. Paradoxalmente, NORMAL MENTE, obra do Coletivo Dança-Libras, de Fortaleza/CE, apresentada em 21 de outubro de 2026, no Festival Nacional de Teatro de Jales, propõe outros lugares de se ver. Mais do que ampliar possibilidades de acesso, o espetáculo transforma as próprias plataformas de acessibilidade em linguagem cênica, deslocando o olhar e questionando aquilo que, por convenção, reconhecemos como uma obra cênica.
Clarissa Costa revela uma preparação corporal potente, executando com rigor e precisão as partituras propostas. Seu corpo não apenas realiza movimentos: articula sentidos, estabelece relações com o espaço e participa ativamente da construção dramatúrgica. Há um domínio técnico que não se encerra na execução, mas se manifesta na capacidade de fazer da corporalidade um território de comunicação, presença e invenção.
Em NORMAL MENTE, imagem e dramaturgia não caminham paralelamente, tampouco se limitam a ilustrar uma à outra. Fundem-se numa composição na qual cada elemento atua sobre o outro, produzindo uma experiência estética que escapa aos padrões habitualmente encontrados nas programações de artes cênicas. A obra nos convida a rever não apenas o que vemos, mas também os códigos que determinam o que consideramos digno de ser visto. Afinal, o que seria normal encontrar em uma programação? E quem estabelece essa normalidade?
Essa integração remete à técnica de fusão difundida por Pina Bausch, na qual dança, imagem, gesto, sonoridade e demais elementos não se apresentam como camadas justapostas, mas como componentes indissociáveis de uma mesma construção poética. No espetáculo, a acessibilidade não aparece como recurso complementar ou concessão: constitui matéria dramatúrgica, pensamento e experiência.
A iluminação merece destaque especial. Seus recortes precisos instauram tensões, delimitam campos de atenção e interferem diretamente na percepção da cena. A audiodescrição, por sua vez, incorpora essas nuances com riqueza de detalhes, tornando perceptíveis escolhas que ultrapassam a simples descrição do que está diante dos olhos.
Em determinados momentos, fechei os olhos para experimentar a dança por meio da audiodescrição. O exercício revelou uma dimensão surpreendente: o não ver, quando acompanhado de uma descrição precisa, viva e sensível, não empobrece necessariamente a experiência; pode ampliá-la, ativando outras formas de imaginar, perceber e construir imagens. A palavra deixa de apenas traduzir o visível e passa a produzir presença.
NORMAL MENTE desloca, assim, o centro da experiência cênica. Não se trata somente de tornar a cena acessível, mas de reconhecer que existem diferentes maneiras de percebê-la e habitá-la. Ao reinventar o lugar de onde se vê, o Coletivo Dança-Libras também transforma o lugar de quem vê. E talvez seja justamente aí que reside a força política e poética da obra: mostrar que, nas artes cênicas, a normalidade não é uma medida universal, mas uma convenção que a arte deve colocar em movimento.