O corpo grotesco veio ao festival e trouxe a crueza da bufonaria

Crítica por Dib Carneiro Neto

Refletir sobre o teatro em uma peça de teatro, quase sempre, é tiro certeiro para atrair o interesse do público que gosta e tem curiosidade sobre seus meandros, bastidores e desafios. O que também quase sempre acontece é que refletir sobre a condição de ser artista de teatro é refletir, por extensão, sobre o contexto social e político em que essa brava gente está inserida, ou seja, significa refletir sobre o Brasil.
Participando ao ar livre da programação do 12.o Festival de Teatro de Jales, o Grupo Nômade, de São José dos Campos, com seu espetáculo Caravana do Circo Sem Futuro, faz essas reflexões de metateatro – estendidas ao Brasil atual – ficarem explícitas desde o início, porque a trupe batiza de Brazuca o veículo cenográfico que os transporta em suas andanças mambembeiras pelo País (e pelo palco). Um recurso humorístico infalível, porque permite que se brinque com muitas frases de duplo sentido. É o que eles fazem, fisgando a plateia com essa inteligência debochada que todo mundo aprova. “Eita, que o Brazuca deu pau de novo!” Ou: “Com empurrão, ele pega no tranco.” Ou: “Vamos consertar esse Brazuca!” Ou, ainda: “Calma, com violência ele não funciona!” Mas do que é mesmo que a gente está falando?
A bufonaria se instala como meta, como mote, como linguagem imperativa. Desde a estética até o texto. O corpo grotesco está em cena, como principal ferramenta. Formas exageradas, feiura cultivada, movimentos distorcidos. A deformidade como acinte e como pacto. O artista bufo opera sua catarse na desestabilização do público, no desconforto assumido. O grupo paulista entende do que faz.
Entende tanto que não economiza nos palavrões nem reprime escatologias ou situações pornográficas. Ao contrário, cultiva tudo isso ao longo do espetáculo, mexendo com a lógica acomodada de um mundo que tem preferido o sem-saborismo da correção, o cinza desbotado do bom comportamento. Os bufões precisam nos salvar do marasmo institucionalizado.
Os diretores e dramaturgos Ana Cristina Freitas e Jonas di Paula inspiraram-se no cultuado filme de Cacá Diegues (1940-2025) Bye-Bye, Brasil, que também tinha um caminhão mambembando, de nome Caravana Rólidei. Buscaram no filme não só essa aproximação narrativa, apoiada em personagens desesperançados, miseráveis e itinerantes, mas a essência de, com isso, falar do Brasil em crise, aculturado, faminto. Um país que atola e desatola, chafurdado na lama, sem tração nas rodas. E seus artistas, sua arte e sua cultura, em um cenário de terra arrasada, tendo de resistir, de se virar como podem.
De se virar como podem? Então que tal um pacto com o diabo? Na fábula contemporânea do Grupo Nômade, já que Deus se recusa a falar com a trupe, o coisa-ruim entra em ação. Tragédia, morte, pacto, dramalhão nonsense – surge assim no espetáculo, ao lado do escracho da bufonaria, um tributo tocante aos antigos melodramas circenses, com suas reviravoltas fantasiosas ao estilo Deus ex machina e seus momentos dilacerados de coração na boca. O grupo paulista sabe o que faz.
Tanto sabe que, além do filme de Diegues, escolheu beber sonoramente na fonte do grupo musical nordestino Cordel do Fogo Encantado, mais especificamente no álbum batizado de O Palhaço do Circo Sem Futuro, de 2002. Essa obra já foi muito analisada como fervorosa, mística, densa, trágica e urgente. A trilha da peça segue por essa linha melódica e de atitude, caprichando nas guitarras raivosas e na visceralidade do rock. Sem deixar faltar Cazuza, vomitando feito bufão suas perguntas (infelizmente ainda tão atuais) sobre o Brasil com s: “Qual é o teu negócio, o nome do teu sócio?”.
Foi assim, equilibrando seus lances de humor físico com reflexões políticas ácidas, que o Grupo Nômade passou por Jales, mostrando para um público predominantemente jovem mais um jeito de se fazer teatro, o jeito bufão, que ri para não chorar, que faz paródia debochada da condição humana, que expõe a crueza das hipocrisias sociais, que escancara os vícios e as contradições das elites. Impiedoso, provocador e marginal, o bufão não quer a ingenuidade e a vulnerabilidade do palhaço. Sua graça mora nas sombras da lona furada, do circo sem futuro. Do País sem futuro.

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