Crítica por Dib Carneiro Neto
Na magnitude temática de um festival que quer aproximar o público de corporalidades possíveis, mostrar o medo do desconhecido, provocado por um corpo andante insubmisso às regras urbanas capitalistas, foi mais um acerto. Ter trazido para a programação o espetáculo ‘Gente’, da Cia. Cênica, de São José do Rio Preto, representa a coroação dessa investigação. Em toda cidade há pelas ruas seus quixotes alucinados, sobrevivendo em suas órbitas muito particulares e marginalizados pelos defensores de supostas normalidades comportamentais. Corpos rejeitados por serem corpos livres que mexem com a lógica urbana e, por isso, metem medo.
A peça escrita e dirigida pelo paulista Marcelo Romagnoli conta a vida de um artista andarilho missionário, que incomodou autoridades e intolerantes em geral com seu corpo perambulante, provocador e pacifista, que circulou por anos e anos por ruas do Rio de Janeiro e de Niterói, José Datrino, o Profeta Gentileza, aquele que cravou para sempre nos nossos imaginários uma frase emblemática, hoje usada e abusada, estudada filosoficamente, traduzida sociologicamente: Gentileza gera gentileza.
A sensibilidade da produção, do coletivo e da curadoria foi programar a peça para um espaço aberto, ao ar livre, em plena praça pública, no caso, a Praça Euphly Jalles, no centro de Jales, à frente da catedral diocesana da cidade, ou seja, um local de bastante significado para os cidadãos jaleenses. Claro que o espetáculo se acomoda muito bem em teatros de caixa preta e seus palcos italianos convencionais, mas contar a história desse personagem em uma ambiência equivalente à que o personagem viveu ganha mais camadas de compreensão e verdade.
Com seus famosos escritos e desenhos nos murais da Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, Gentileza contestou a monotonia visual das grandes cidades, ao transformar espaços públicos em suportes artísticos de livre acesso. Sua estética rompeu a frieza do concreto. Em uma época em que não se falava ainda em street art, ele abriu nossos olhos para a democratização da arte. Portanto, ‘Gente’ ficou perfeita na praça da cidade.
Outro mérito de recrutar a Cênica foi acrescentar ao escopo temático do festival a presença de corpos transgêneros no elenco do espetáculo. Uma tomada de posição que significa realmente apostar na diversidade de forma ativa e concreta, não só no discurso ou na demagogia contemporânea da era do politicamente correto. ‘Gente’, que fala de gente e fala da gente, se constrói com a força de corpos até pouco tempo invisibilizados, silenciados, afastados das possibilidades de representação. Como aconteceu com o profeta-poeta-pregador, que foi perseguido por ser diferente, até ser enclausurado mais de uma vez ao longo de sua trajetória de vida. “Tudo o que atrapalha tem de ser higienizado”, diz um ‘milico’ na peça.
Curioso notar que para retratar personagem tão ‘fora da casinha’ como Gentileza, a escolha da dramaturgia foi pela linearidade biográfica, inclusive hagiográfica, seguindo uma linha lógica do tempo, quando muitos outros portais poderiam ter sido abertos, mais descolados do roteiro aristotélico. Não é um defeito nem chegou a ser uma escolha limitante, porque couberam na proposta momentos de sugestão de delírio visionário e cenas bastante antinaturalistas. São apenas escolhas de quem escreve e quer contar bem a história.
O passar do tempo é muito bem delimitado, aliás. A plateia sabe exatamente quando o personagem tem 7 anos, depois pula para 21, depois 42 (já com 5 filhos), depois 70, 77 e, enfim, 79, quando morre. Aliás, morre não, ele “avança para o espaço sideral”, como sinaliza o ótimo texto. Absolutamente tocante e emocionante é a cena fantasiosa em que, aos 77 anos, ele volta para o colo da mãe. O diálogo entre os dois é antológico e com extremo potencial empático para a plateia. Voltar às origens, ao seio materno, poder pedir colo de novo.
Contar/cantar/narrar uma história com começo, meio e fim, com o propósito de organizar a vida e o pensamento de quem se posicionava contra convenções, é um caminho seguro e inteligente. Uma lucidez para o desatino. O formato de musical, inclusive com trilha ao vivo, também foi uma escolha que trouxe vivacidade e potência para a história narrada. Registre-se aqui a entrega absoluta de um elenco de multiartistas muito bem preparados para todas as propostas exigidas, do lírico ao deboche, do físico ao introspectivo, do falado ao cantado, do narrado ao inventado. Do luxo ao lixo. São eles: Andrea Capelli, Christina Martins, Fabiano Amigucci, Geovanna Leite, Glauco Garcia, Vanessa Palmieri e Cairo Francisco (músico ao vivo). É tudo gente. Gente que também delira e tem a coragem de espalhar amor.